10/07/2011

Meu nome é... bom, isso é o que menos importa.
Sou casada, muito bem casada. Amo meu marido. Sou uma mulher bonita, chamo atenção pelas ruas. Meu marido é ciumento.
Gosto de me arrumar, me cuido. Em dias de semana - trabalho, mas não importa muito com o quê -, acordo uma hora mais cedo pra ficar mais bonita do que já sou. Não pareço, mas sou bem modesta. É sério! Meu marido sempre me elogia, porém no seu olhar não consigo perceber orgulho de ter em casa uma mulher que se cuida. Adoro me olhar no espelho, passar minhas "pinturas" - gosto de batom vermelho -, arrumo meu cabelo, perfume e pronto: posso sair de casa. Sim, sou bastante vaidosa.
Semana passada meu marido estava diferente... pouco carinhoso e com um brilho estranho no olhar.
"Você está me traindo!" foi a primeira coisa que ele disse quando chegou em casa. Neguei, claro! Eu não poderia cometer esse erro, eu tenho caráter.
Na manhã seguinte, o espelho não era mais um amigo. Ele não me fazia esquecer a noite anterior. Não quis colocar nada na cara, só uns óculos escuros pra esconder o que o espelho me revelava torturantemente.
Aquela cor não condizia nada com meu rosto, não fico bem de roxo... Mais um dia sem enfrentar o espelho... sem enfrentar todas aquelas pessoas na rua me olhando com dor nos olhos.
Os dias eram mais lentos e ele não parava de afirmar com toda certeza que eu tinha um amante. Eu negava, mas ele não acreditava, não conseguia compreender que eu era vaidosa, me arrumava pra me sentir bem. Mais uma noite sem amor.
Amanheceu, dia lindo! Decidi me olhar naquele terrível espelho e fiz o que podia pra amenizar os hematomas. Fui trabalhar. No caminho, decidi parar pra conversar com um homem bonito até, que sempre me dava "bom dia", com voz doce e cheia de malícia.
Voltei pra casa com a consciência pesada; naquela noite ele não afirmou nem insinuou que eu tinha um amante. Talvez porque agora eu tenha um amante.

27/06/2011

Eu não sabia que iria ser tão fácil me tirar de você. Nós dois mal percebemos que nos perdemos um do outro.
Caminhamos por lugares tão distintos. Você por largas ruas e eu por becos escuros e sujos. Mas isso não importa mais... ou, talvez, nunca tenha tido a importância que poderia merecer.
Uma ligação e ficou decidido: nada de afetos excessivos e irrelevantes.
A sobriedade dos apaixonados é bastante complicada de ser conseguida. Eu me embriaguei, novamente, com seus doces carinhos, com seus lindos sonhos - que eram apenas nossos - e com todo um conjunto meigo que você decorava nossa vida. Ou serão nossas vidas?
Mas sinto que nesse pequeno caminho alguma coisa se perdeu e tudo tenha chegado de verdade ao fim. Alguma coisa se esgotou, a falta que eu não mais faço...
Uma tola ligação pra decidir o que já estava bastante nítido.

06/06/2011

Unhas

Passado algum tempo e devido a fortes tempestades, pude perceber que fui inocente em supor que você me queria ali, do seu lado, usando suas coisas que só o dinheiro pode comprar. Distribuindo beijos vazios de qualquer coisa, beijos que não consegui sentir, pelo menos, um hálito qualquer de besteiras comestíveis.
Fui vítima? Não sei. Essa é uma pergunta que eu não me faria. Porque me sinto vítima agora. Então, sou vítima. Mas não quero ser coitadinha.
Vítima de sentimentos de posse - é seu, eu sei. Vítima do medo e do que a TV vive esfregando em nossas caras, sejam elas pretas ou brancas, daqui ou de acolá. Uma TV suja de poeira e de sangue, de roubo e de ácaros. Seja uma TV antiga ou essas super modernas, fininhas, mas que mostram as mesmíssimas diferenças.
Eu aqui e você aí: também tenho uma TV- velha por sinal -, também tenho um telefone, água, luz, chuveiro elétrico - pros dias frios- e, supreeda-se: UMA CAMA bem quentinha. E o essencial, não poderia esquecer, tenho um teto.
Mas, por favor, não me pergunte se tenho caráter, porque isso eu não tenho. Afinal, como posso ter isso? Não sei o que ele come, nem como poderia criá-lo... porque mesmo tendo TV velha e cama quentinha... difícil de dizer... mesmo tendo tudo isso, sou pobre e moro mal: não posso criar um caráter.
Meus pais até me deram educação (não coma de boca aberta; aliás, quem me ensinou a pegar uma colher, foi minha avó), nunca foram de deixar eu me "enturmar" (porque acho "me misturar" muito cruel) com pessoas "diferentes". Aí, surge a grande questão: como eles conseguiram? Porque, né, vamos ser coerentes: não ter dinheiro pra comprar uma TV nova e ter um teto (não importa onde) não são artifícios suficientes pra criar um filho que tenha caráter.
E eu sei, nada vai te fazer pensar em outras possibilidades. Só a querida e bela TV. Ela sim, te diz toda a verdade sobre mim e sobre nós, que não temos dinheiro pra ter uma taça de cristal e tomar vinho no almoço ao invés de um Convenção (ou um Dolly).
Mas não mude! Continue almoçando seu status. Depois, no banheiro, tem que limpar diretinho e lavar bem as mãos, pra que sua sujeira não fique impregnada nas suas unhas também.

29/05/2011

Não precisa se preocupar, sou compreensivo. Vou entender bem se a sua decisão não for sua.
Não quero que dedos enrugados apontem em sua direção e diga que você não sabe escolher. Não quero ser visto como mais uma falta de acerto sua.
Sua vontade e escolha não importam (pra eles). O que importa é sua dignidade - deles.
E todos esses "suas"... você sabe bem: não são seus.

16/04/2011

Do que vai te adiantar inventar mil desculpas agora pra me procurar?
Não me faz falta um guarda-chuva, ainda mais em dias sem chuva.
Eu aceitei sua escolha. Agora aceite a minha decisão de não querer saber de suas incoerências.
Não quero mais saber.
Não quero mais.
Não quero.
Não.